16/06/2016

Sabe aquele frio na barriga? Pode ter muitas explicações. Nervoso, ansiedade, aflição, impaciência. 

Qualquer um serve.

No meu caso, sempre foi paixão. 

Sabe paixão? Aquela morena de óculos e olhos escuros que vem soprar no teu ouvido dizendo: 

“Agora você está perdido. Te peguei de pijama e cabelo bagunçado. No flagra.”

Sua cabeça não para de pensar em outra coisa. 

Você deseja estar em um poema de Vinicius ou em um trecho de Jobim. 

Imagina balões em formatos de coração e andar de pedalinho em um lago. 

Qualquer coisa babona serve. 

Deseja ardentemente uma declaração de amor debaixo de chuva como clichê de filme americano. 

Se desfazendo de poesia romântica e qualquer verso descompromissado. 

Discordo de Cazuza. A vida não é um show. 

Ela é um museu de cera em eterna reforma. 

É um livro dedicado perdido debaixo da cama. 

É sair do ninho. 

É se perder de paixão 

É saber que não lhe resta mais nada além do frio na barriga. 

29/12/2015

E assim quando ele chega
Meu coração repleto e de peito sereno, o recebe
Minha cabeça nas nuvens
Laranjas
No alto eu me perco
Por tal geometria escolhida
Os pés que o chão não toca
O passo, cadarço, laço
Mãos de história pra dormir
Anéis nos teus dedos
Cabelos amarelos
Geografia perdida
Aritmética dos teus lábios
De sangue a terra se enche
Poesia encolhida por botões
Companheiro de casa
Suor e lagrima a piscina esvazia
E com tua companhia termino de limpar a cozinha

 

 

 

Títulos

E de casa tomada em cada esquina
Lajota e barro na parede
Piso partido e ladrilho quebrado
Cimento branco ou massa corrida
Água, pá e balde
Pedreiro perdido no serviço
Refinaria e alto padrão
Vida levada por arraso e tombo
Desconstrução
Puta, amiga, amante
Feiticeira ou bruxa
Mulher
Sem correção de virgula ou crase
Sem rima de alfabeto ou liras
Falta ainda plantar a base
Métrica sem milímetros
Poeminha modernista
09/12/2015

Poema sem nome.

De todas as formas

Quase e sempre

Trovo aqui igual aos menestréis

Todos os rompantes dos amores desmedidos

Tal qual trovoada que rasga o céu

Relâmpagos ou natureza fria

Com a virtude dos sete anéis

Paixão escrita na praia

Façamos valer coração puro

Meu brinco perdido na sua mão

Retratos rasgados

Um recado de caneta azul na geladeira

Passeio frustrado

Muro pulado

Cachaça

Vinho

Aquilo que esquenta o peito, amor meu

Estrada esquecida

E de tudo e mais um pouco

Venho reconhecer

Nossa vida.

06/11/2015

Aqueles pés de carambola

Bailávamos
Ela tinha uma tristeza profunda no olhar
Aquela de rio ou mar em águas chuvosas
Nos quais o mais ardiloso aventureiro de Aquiles ousaria entrar
Tinha cabelos pretos e olhos pretos
Uma de cor de pele quase indefinida pelos registros
Mas que o sol tinha inveja de não ter feito
Ah! Mas para quem importam as aparências?
Bailávamos dessa forma distante
Sentados e ousados
Tal como vento e pipa
Uma dança envolvente que só a nós cabia
Bailávamos
Sentindo nossos corpos distantes e amantes
Ela descalça e eu sem meia
Teu pé, galho torto de carambola
Tinha uma coisa doce
Tinha uma coisa de fruta
Tinha ela e bailávamos
Assim de ponta e cauda
Como um casamento desandado
Bailávamos
Quase como um carro desgovernado
Quase uma assinatura de contrato
Bailávamos
E no fim que não existiu
Ainda sinto seu peso de pipa
Seu cheiro de fruta
E assim, bailávamos.

05/10/2015 – Salavdor – BA

O encantamento das palavras. 

Nessas páginas em branco Angústias, anseios e procuras lá estão. 

Vivem de forma livre à espera de um dono. 

Uma letra, uma frase que existe e sustenta a razão. 

Letras que completam e dispõem de leveza. 

Um recital de clarineta. 

Palavras que são mágicas. 

Na esperança disparatada de cada página. 

Na loucura impetuosa de cada frase. 

Quase um stradivarius, sendo raro até para o coração. 

Tudo que é de emoção me cativa. 

Me cativa porque é humano. 

E o humano é o querer.

Qual personagem da Alice você sonha ser?

A grande história de Lewis Carrol encanta qualquer leitor. Podemos dizer que é um livro para ser lido dos oito anos até quando você estiver vivo.
Ele conta a história de uma menina chamada Alice, que cai numa toca de coelho, transportando-se para um lugar fantástico, povoado por criaturas peculiares e magníficas, revelando uma lógica do absurdo, característica dos sonhos.
Este livro está repleto de alusões satíricas dirigidas tanto aos amigos como aos inimigos de Carrol, de paródias a poemas populares infantis ingleses do século XIX e também de referências linguísticas e matemáticas. Sendo assim, ela é uma obra de difícil interpretação, pois contém dois livros num só texto: um para crianças e outro para adultos.
Mas a pergunta que eu quero fazer é: será que queremos ser Alices ou qualquer outro personagem do livro?
No meu primeiro dia na terapia ouvi a seguinte pergunta:
“Qual o seu livro favorito?”
Minha resposta instantânea foi: “Alice no País das Maravilhas.”
“E porque?” minha terapeuta perguntou.
“Porque me sinto presa em um sonho e não consigo sair”.

Esse é um sentimento que não sai da minha cabeça e provavelmente da sua também. Vivemos em sonhos e muitas vezes a suposta realidade aparece somente como coringa em um baralho de cartas repetidas.
Devemos pensar que nossa única salvação são as palavras, frases, sentenças. Muitas vezes elas ficam soltas em nossa cabeça como pregadores esquecidos na grama.
Palavras que não enchem a cabeça nem o coração. Palavras que nos enchem de dúvidas e transformam uma simples mariposa em um avião a jato.

Imaginação? Temos de sobra! Podemos ser a Alice, racional e corajosa ou o Coelho Branco que carrega um relógio e parece estar sempre muito atrasado para alguma coisa.
Podemos jogar críquete com o Dodô ou pensar na vida como a Lagarta e responder às perguntas básicas da vida com monossílabos. O Gato de Cheshire , Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março podem ser nossos melhores amigos.Sua inimiga ou amiga pode ser a Rainha de Copas.
Mas e você? O que quer ser?

Vida Oca

Você lembra daquele carvalho, ao lado da casa no alto da colina?
Velho estereótipo que encaixava perfeitamente em mim.
Tinha o dom de construir, reinventar e reformar tudo o que eu quisesse.
Porém, não tinha o dom de destruir.
Não tinha machado ou serra que bastasse.
Passaram os anos e as folhas caíram sem controle.
Os galhos cresciam e quebravam as telhas da casa.
Fazia de tudo para invadir e viver dentro dela.
Aos poucos e com o tempo a árvore perdeu seu rumo.
Crescia de forma descontrolada e invadia mais e mais o território que não lhe pertencia.
Entrava na cozinha, sala e quartos.
Tudo estava vazio.
Não sabia mais a diferença entre a árvore e a casa.
Coloquei veneno na raiz.
Por resultado, ela foi secando.
Tratamento trágico e sem pílula dourada.
A casa ficou vazia.
A árvore morreu.
No endereço, antigamente vinha escrito: “para a casa ao lado do grande carvalho”.
Hoje o novo endereço é: “para a casa vazia localizada na Rua Vida”.

O Senhor Brócolis e a Dona Alcachofra.

No primeiro momento quando você lê o titulo pode pensar: Será uma história de amor?

Infelizmente não é. Não sei bem sobre o que é a história, ou até mesmo se ela teria uma moral, mas é uma bela história.

Era um dia ensolarado e muito normal de feira, quando Dona Martinica resolveu arrumar sua banca de forma diferente. Esse foi o seu grande erro. Porque grande erro? Isso eu respondo depois.

Primeiro ela organizou as frutas pela ordem de cor e doçura. Na segunda arrumação foi à vez das verduras. Ela organizou também por ordem de cor, espessura e até na ordem de qual seria a mais saudável. Esse foi erro.

Dona Martinica sem ter muita noção do que estava fazendo colocou a Dona Alcachofra do lado do Senhor Brócolis. Eles não se conheciam direito. Possuíam cores, gostos e formatos diferentes. Pensamentos? Nem te conto.

O Senhor Brócolis morria de medo de morrer no vapor junto com outras leguminosas. Já a Dona Alcachofra, tinha orgulho de ser uma planta muito complexa, até uma classe no reino dos vegetais ela tinha. Dizia com orgulho:

-Tenho sangue azul. Sou da classe das angiospermas.

Nesse mesmo dia da arrumação, uma menina muito simpática e arteira perdeu a lista de compras que sua mãe tinha preparado com todo cuidado.

A lista estava organizada por ordem alfabética e até pelas cores das frutas e verduras. Ao sair de casa ela pegou a lista e colocou presa no laço de sua boina.

Resultado? O vento tão forte da chuva que estava chegando levou lista, boina, enfeite de cabelo, guarda chuva e até a menina quase voava.

Na barraca da feira ela se lembrou dos ingredientes do cozido (sua comida favorita na verdade). Abobora? Ok. Batata? Ok. Banana da terra? Ok. Maxixe e Jiló? Ok.

Chegando na parte das folhas ela não tinha esquecido do espinafre, mas na verdade o que ela precisava era do brócolis. Enquanto isso na bancada, o Senhor Brócolis e a D. Alcachofra viviam brigando.

O Senhor Brócolis dizia: “Eu sou mais verde” e a D. Alcachofra respondia: “Eu sou muito mais saudável”. O Senhor Brócolis replicava “Eu sou muito mais fácil de cozinhar” e a D. Alcachofra dizia com o nariz empinado: “Eu sou muito mais apetitosa”. Durante a briga Dona Martinica retirou o brócolis da bancada que saiu com tanto medo que ate molhou a calça.

A menina paralisou seu olhar sobre a alcachofra. “Que cor linda! Que folhas apetitosas! O que será que tem dentro?”. Pela curiosidade ela acabou levando a alcachofra para casa.

Fechando a conta na barraca, a menina saiu saltitando para sua casa, enquanto dentro da sua sacola uma competição nova estava acontecendo. Quem seria cozinhado primeiro? O Senhor Brócolis, que somente com um pouco de água e a sal estaria pronto para o garfo ou a D. Alcachofra que só estaria pronta depois de todo o seu protocolar procedimento de cozimento?

Na cozinha da casa, os dois estavam muito ansiosos. O brócolis como era de costume, ficou guardado na geladeira até surgir uma hora oportuna para uma boa alimentação. Já a alcachofra, passou por todo o caminho doloroso e com bravura. Virou comida e remédio.

Enquanto o brócolis já amarelado com o tempo não sabia quando seria usado. Alimentação saudável? Pode ser no almoço ou na janta. Agora tanto faz, porque na verdade na feira tudo se compra e se refaz.